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Dicas do Professor

Alterações de humor podem mascarar distúrbios na Tireóide

Exames de análises clínicas e de imagens possibilitam diagnóstico de algumas patologias quatro a oito anos antes de se tornarem evidentes

Localizada na região do pescoço, a glândula tireóide é responsável pelo funcionamento de uma série de atividades do organismo. O seu mau funcionamento, definido como hipertireoidismo ou hipotireoidismo, provoca sintomas que com freqüência são atribuídos a outras doenças ou a fatores psicológicos.

Nos últimos anos, a incidência de doenças tireoideanas tem se elevado por inúmeras razões. Entre elas, o aumento do número de idosos (ampliação da expectativa de vida), mais agilidade quanto ao diagnóstico e mudanças no teor de iodo da alimentação. Se antigamente a população com pouco acesso ao iodo sofria com a cretinice em neonatos, hoje, o excesso de alimentos com iodo, principalmente no litoral, predispõe ao hipotireoidismo auto-imune e ao surgimento de nódulos. Uma vez que a manifestação mais comum (hipotireoidismo auto-imune) atinge cerca de 9,3% de toda a população feminina, sua observação é de extrema relevância. Mesmo na fase em que é considerada sub-clínica, isto é, no momento em que a doença apresenta pouco ou quase nenhum sintoma, pode ser identificada por meio de exames de análises clínicas e de imagens. Quando se utilizava a avaliação da tireóide pela palpação, apenas 4 a 7% da população apresentava nódulos. Hoje, o uso da ecografia detecta nódulos em até 50% da população.

Segundo a endocrinologista Dra. Márcia Neto de Campos da Silva, estes métodos possibilitam o diagnóstico de algumas patologias quatro a oito anos antes de se tornarem evidentes e de trazerem conseqüências mais graves para a estabilidade do organismo. Devido à atenção que tem recebido e às novidades para a detecção e tratamento das síndromes de tireóide, esse assunto será o tema do III Ciclo de Palestras e Debates – Santa Luzia Científico, que será destinado à classe médica e acontece no próximo dia 20 de maio, no auditório da ACM.

Palestrante do evento, Dra. Márcia da Silva traz para o Labinforme as principais questões pertinentes à doença, como abrangência, diagnóstico, tratamento e conseqüências.


Quadro de sintomas de Hipotireoidismo

Pode iniciar-se com depressão, desmotivação e até mesmo síndrome do pânico. Outras alterações como anemia, colesterol elevado e hipertensão podem ser conseqüentes ou agravados pelo hipotireoidismo. Além disso, são associados ao quadro: pele ressecada, cabelos ásperos, unhas quebradiças, prisão de ventre, fadiga, perda de apetite, aumento de peso, períodos de menstruação irregulares ou ausentes, tornozelos e rosto inchados.


Labinforme – O que é o Hipotireoidismo?

Dra. Márcia – O estado de hipotireoidismo ocorre quando a produção de hormônios pela glândula tireóide é baixa. Esse distúrbio provoca lentidão no metabolismo e alterações em todo o organismo. Existem inúmeras causas que podem acarretar o hipotireoidismo. Entre elas: a neonatal, a carga genética relacionada à doença auto-imune e a deficiência de iodo.

Fale sobre cada um destes fatores que desencadeiam a síndrome e sua prevenção.

Hipotireoidismo neonatal – detectado logo após o nascimento, tem geralmente como causa uma má formação ou incapacidade de produção de hormônios pela tireóide, ou, ainda, carência materna de iodo. A incidência é de 1 para 4 mil neonatos. Não se pode prevenir todas as causas de hipotireoidismo neonatal, mas sim suas conseqüências, como os danos irreversíveis ao desenvolvimento intelectual e alteração de crescimento, conhecido como “cretinismo”. A realização do teste do pezinho ainda na maternidade, obrigatório por lei federal, detecta a doença. A carência de iodo é prevenida com suplementação alimentar de iodo, e para isso se utiliza o sal de cozinha industrializado. Por sua gravidade, que causa o cretinismo, em 1955 foi criada uma lei federal no país que obriga as salinas a iodizarem o sal. Hoje, no Brasil, a carência de iodo é rara e ocorre mais nas regiões centrais (distantes do litoral), em áreas endêmicas, onde grande parte da população apresenta bócio (aumento da tireóide). Entretanto, ainda há regiões endêmicas com bócio e hipotireoidismo no interior do nosso estado, onde indígenas utilizam o sal de gado no consumo alimentar.

Hipotireoidismo auto-imune (Tireoidite de Hashimoto) – com uma prevalência maior em mulheres brancas, que é de 9,3% junto à população feminina (na masculina é de 1,3%), esta doença é a mais comum. Carga genética associada à alta ingestão de iodo é fator importante para desencadeamento da doença. Sua prevenção não é possível, mas a disponibilidade de exames de análises clínicas e de imagens permite que este diagnóstico seja concluído numa fase sub-clínica da doença, ou seja, quando ainda os sintomas (descritos abaixo) são pouco específicos e quase nada aparentes.

Em relação ao hipotireoidismo auto-imune, que é o mais comum e possui um quadro tão amplo de suspeitas, qual seria sua sugestão para uma avaliação precisa do médico a partir do surgimento desses sintomas?

Se há pelo menos três sintomas e o histórico de casos de hipotireoidismo na família, o meu conselho é que se investigue. Apesar de não haver um consenso sobre o rastreamento estendido à população, em geral, eu acredito que estes indícios merecem investigação. Outro indicador para a realização destes exames é a presença de sintomas em determinadas fases da vida nas quais a doença é mais comum, como na puberdade, pós-gestação ou menopausa.

Fale agora sobre o Hipertireoidismo.

Se o hipo resulta numa lentidão do metabolismo e ganho de peso, o hipertireoidismo, por sua vez, traz aceleração e perda de peso, em conseqüência de uma produção de hormônios mais elevada. De todas as causas de hiper, a mais comum é a auto-imune (Doença de Graves). Mais rara e grave do que o hipo, essa doença é desencadeada por situações de estresse emocional ou de baixa resistência em pessoas com predisposições genéticas a doenças auto-imunes como Vitiligo, Artrite Reumatóide, Hipotireoidismo e Diabetes. A utilização de algumas drogas como a amiodarona, utilizada na cardiologia, é outra causa não rara de hipertireoidismo em adultos. Além dos sintomas funcionais, que são taquicardia, insônia, agitação, calor, fraqueza, perda muscular e de peso, a doença pode ser acompanhada de projeção do globo ocular para frente (Exoftalmia). Freqüentemente, o paciente percebe o batimento cardíaco, o tremor nas mãos e sua respiração ofegante em pequenos esforços. Esses sintomas normalmente são confundidos com um quadro de ansiedade intensa e, se não tratados, podem desencadear graves alterações cardíacas e ósseas.

Fale sobre os principais danos que as síndromes podem gerar ao longo dos anos.

O hiper acelera o coração e pode causar arritmias, entre elas a fibrilação arterial, que por sua vez aumenta, em idosos, a tendência a tromboembolismo e ao acidente vascular cerebral, conhecido como “derrame cerebral”. O hipo, apesar de menos severo, pode aumentar a taxa de mortalidade, por agravar doenças próprias da idade, como altos índices de colesterol, hipertensão, Diabetes etc.